Aprendendo
com os Mitos e Lendas
(Por
John Matthews)
Os
Xamãs foram os primeiros contadores de estórias, tecendo os mitos
que ainda hoje nos emocionam. O melhor modo de se ensinar ainda é
através da parábola, um tipo especial de estória. O xamã deve
aprender o maior número possível de estórias, lendas, contos
apócrifos e mitos. Porém, a mais importante estória a ser
aprendida é a sua própria. Não só você deve aprendê-la, como
também deve aprender a contá-la, para a mais exigente platéia que
existe: você mesmo.
Tudo
possui as qualidades do mito. A vida é cheia de alusões míticas,
as quais você, como um xamã contador de estórias, deve aprender a
cantar. Por esta razão, você deve prosseguir em sua exploração
pessoal das infinitas dimensões interiores do universo. Sempre que
um xamã ingressa no Outro Mundo, retorna com uma nova estória para
contar.
As
práticas religiosas convencionais, por mais válidas que sejam,
costumem desapontar, pois não atendem ao profundo desejo que os
humanos nutrem por mitos. Como diz Alberto Villoldo em seu livro The
Four Winds, qualquer sacerdote não passa de um 'zelador de mitos,'
enquanto que o xamã penetra nas regiões mais profundas do Outro
Mundo e retorna com novos mitos em criação. Ele então os preserva,
como os xamãs fazem desde tempos imemoriais.
O
grande mitógrafo Joseph Campbell disse, em mais de uma oportunidade,
que ele cria que uma mitologia para a nossa era não só era
necessária, como estava em formação, apesar de não saber precisar
que forma ela teria. Creio que esta pode muito bem ser o mito
xamânico, e que, ao resgatar as lendas e os ensinamentos da tradição
celta, estaremos começando a construir nossa própria parte nesse
mito. O xamanismo atende tão bem às necessidades do mundo
justamente por ter como base um conjunto comum de percepções, e
porque ele se relaciona de modo preciso com o mundo em que vivemos.
Se
assim é, o que nós, Xamãs Celtas, podemos fazer para acrescentar
nossas próprias vozes a esta estória em evolução? Devemos
aprender algumas das histórias maravilhosas encontradas na ancestral
literatura celta. As antigas lendas eram outrora narradas nos salões
dos reis celtas. Ao trabalhar com elas, você se aproximará dos
espíritos do povo celta, e de seus poetas-xamãs e contadores de
estórias. Elas não são inacessíveis, como alguns podem imaginar,
e representam o melhor meio de se conectar à tradição das terras
celtas. Quando encontrar uma lenda que possua elementos xamânicos
(ou que lhe seja interessante), tente memorizá-la.
Isto
não é tão difícil quanto se pode imaginar. Não se trata de
repetir as mesmas palavras todas as vezes, mas de conhecer os
componentes da estória e o modo como eles se encaixam. Depois que
compreender isto, você poderá contar as estórias a quem desejar
ouvi- las - e certamente todos gostam de uma boa estória!
Com
o tempo, você se verá pronto para começar a contar uma outra
estória - a sua própria. Toda a sua vida é uma estória, e há
muito a se aprender quando, de tempos em tempos, revemos nossas
vidas. Tente relatar alguns pequenos episódios em voz alta para você
mesmo, como se estivesse repetindo uma anedota num círculo de
amigos, à mesa de jantar. Desta vez, porém, não omita nada, como
pode se ver tentado a fazer em outras circunstâncias, e procure
conscientemente pelos padrões ocultos que formam todas as nossas
vidas. Busque as referências importantes a características suas das
quais você não se dá conta. Você se surpreenderá com a natureza
reveladora das coisas de que você 'se lembrará.'
Deixei
um dos ensinamentos mais importantes praticamente para o fim: como
recontar a sua própria estória. Os celtas amavam lendas, e possuíam
uma classe profissional, os bardos e seanachies, cuja tarefa era
memorizar centenas de estórias. Muitas destas se perderam para
sempre, apesar de conhecermos os nomes de algumas. Mais importante do
que isso, porém, é aprender a contar sua lenda em todos os dias de
sua vida. Qual é a sua estória? Que tipo de pessoa ela faz de você?
Você é um guerreiro, um curandeiro, um músico, um viajante? Estes
são apenas alguns dos papéis que você pode desempenhar - talvez
diversos durante sua vida. Você deve perguntar a si mesmo em que
tipo de lenda você vive, e então poderá começar a contá-la, a
princípio somente para você, talvez. Você pode escrevê-la, e
lê-la novamente após algumas semanas. Veja, então, se consegue
identificar os padrões que se ocultam sob a superfície.
O
ato de contar estórias é uma forma de ensino usada desde os
primórdios dos tempos. As parábolas de Cristo e dos monges celtas
eram estórias que nos ensinavam a viver. Entre os nativos da América
do Norte, os Aborígenes da Austrália e os cantores Sami da Lapônia,
por exemplo, existem repertórios virtualmente infinitos de lendas
que narram a recriação e a perpetuação do sagrado, e a relação
das pessoas com este último. As antigas estórias e canções
tradicionais recitadas pelos bardos celtas visavam a,
simultaneamente, entreter e instruir. As estórias e lendas dos
celtas nos falam do Outro Mundo, deste mundo, de nós mesmos. Convém
aprender ao menos algumas de cor; não importa se as palavras não
são sempre as mesmas, desde que os elementos da estória estejam
firmemente enraizados em você. Assim, você poderá contá-las a
qualquer um que deseje ouvi-las, e você poderá se surpreender com a
quantidade de pessoas interessadas. Tente contá-las a seus filhos;
venho contando estórias mágicas a meu filho desde que ele era
crescido o bastante para compreender minhas palavras. Por vezes, ele
as entende melhor do que eu!
Assim,
ouça as antigas estórias, e você verá o quanto aprenderá. Muitos
dos antigos ensinamentos estão contidos nessas lendas, apenas
aguardando para serem retirados e praticados. Depois de um certo
tempo, você verá que novas estórias surgirão a você, talvez
contendo elementos das antigas lendas que se revelam de outras
formas. Escreva- as, e tente decorá-las. Se você é capaz de
memorizá-las sem precisar escrever, tanto melhor, pois assim elas
serão realmente uma parte de você.
(Texto
de John Matthews)
